Essa semana, pela primeira vez em minha carreira, eu senti medo. Não aquele friozinho na barriga que antecede um novo evento: foi medo, mesmo. Medo de verdade.

Começou com uma mensagem aparentemente simples no Facebook: o convite para ministrar uma palestra. E seria um convite como qualquer outro, não fosse o local em que queriam minha presença: a Fundação Casa de Sorocaba (SP). Antiga FEBEM, onde são internados jovens infratores que cometeram algum crime antes da maioridade penal.

Admito que meu primeiro pensamento foi recusar. Imaginei, de imediato, um lugar perigoso, uma energia pesada, o olhar de jovens infratores sobre mim. Fiquei insegura, amedrontada. Porém, outro pensamento me iluminou, muito mais forte que o primeiro: “Ué, Samanta… você não vive dizendo que sua missão no mundo é semear o bem no coração das pessoas? Eis sua chance de fazer isso…“.

E aceitei o convite.

No dia anterior à palestra, meu inconsciente começou a criar as mais diversas desculpas para eu desistir da ideia. Não bastasse isso, a equipe do local começou a me passar orientações sobre o que levar, como me comportar, como me vestir. Comecei a me sentir ansiosa, temerosa - e minha família também. Como seria o lugar? Como seriam aqueles jovens? Eu estaria segura? E o principal: eu conseguiria o mais importante, que era alcançar o coração deles?

Contrariando as vozes do medo, eu não desisti. E, na quarta-feira, 20 de abril de 2016, fui até a Fundação Casa. Somente eu, Deus, meus ideais e os ecos dos meus medos.

Chegando lá, o primeiro tabu foi quebrado: não era um lugar cinzento e sombrio, como eu imaginava. O prédio era alegre e cheio de pinturas coloridas na fachada. Fui anunciada na entrada e passei por algumas portas eletrônicas antes de ser revistada e ter parte dos meus pertences retidos (como procedimento normal de segurança). Os primeiros funcionários que cruzaram meu caminho já me receberam com uma frase que eu não sabia se me animava ou dava mais medo: “Obrigado pela coragem de vir até aqui“.

Fui recebida pela equipe da casa (uns amores!). Então, chegou o momento de encarar a turma a quem eu iria palestrar – cerca de 20 meninos que faziam parte de um projeto de leitura iniciado por uma das educadoras. Eu soube, inclusive, que alguns deles já haviam lido livros meus e estavam ansiosos para me ver – até mesmo pediram autorização aos superiores para se arrumarem antes do horário padrão, pois queriam estar em condições de “receber a escritora”!

No caminho até a sala da palestra, vi que o corredor estava tomado por desenhos e frases dos internos, inspirados pelos livros lidos no projeto. Mais uma surpresa boa. E, quando chegamos à sala da palestra, vinte olhares curiosos se viraram em minha direção, brilhantes, empolgados e sorridentes, à espera do que eu tinha para falar.

Naquele momento, eu já não sentia mais receio. Aqueles meninos não precisavam de mais medo, mais julgamento, mais preconceito. Já os tinham de sobra. Só o que precisavam era de amor, e eu prometi a mim mesma, no primeiro instante em que olhei para eles, que era tudo o que eu entregaria a eles, naquela tarde. Todo o amor que havia em meu coração.

Contei a eles minha história. Contei meus tropeços e vitórias. Mostrei a eles que é difícil, mas possível. Que há vida após os erros. Enquanto eu falava, silêncio absoluto, olhares absortos em mim, cabeças assentindo ao assimilar minhas palavras. Riram, comentaram, fizeram perguntas. E, ao final, fui presenteada com uma canção animada de “Parabéns” pelo aniversário que se aproximava, além de um dos mais lindos presentes que já recebi: um caderno repleto de cartões e mensagens feitos por eles.

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Percebi o quanto minha chegada foi aguardada e preparada com amor, e me senti pequena ao me lembrar de mim mesma, na noite anterior, cogitando se devia desistir. Graças a Deus eu não fiz isso! Todos os preconceitos e medos que nasceram em mim caíram por terra, e fui recompensada com a sensação da mais plena e verdadeira realização. A sensação de cumprir meu dever no mundo.

Nesse dia, se eu tiver impactado um único coração que seja e o inspirado a seguir o caminho da luz, já me bastou a palestra, o dia, a vida. Não tenho palavras para descrever o quanto isso significa, para mim, e como voltei de lá transformada. Saber que, ali, meus livros e minhas palavras estão cumprindo o exato papel que sempre desejei a eles: semear o bem. Espalhar o amor. E, embora as palavras faltem, gravei um vídeo com minhas impressões sobre esse dia, além do depoimento de uma pedagoga que me tirou o chão:

Que todos vocês, que leem essa mensagem, possam encontrar e viver sua missão no mundo. Porque dia após dia, a cada medo que vencemos em prol de fazer o bem, é mais uma sementinha boa que plantamos. E é assim que construímos um mundo melhor.

Com amor,
Sam