Esses dias, recebi uma pergunta muito interessante da querida Josy Loiola:

Sam, no meio de um diálogo eu me deparei com a seguinte situação: precisava mudar o assunto e não sabia como introduzi-lo. Por exemplo: como descrever que o interfone tocou sem ter que falar: “Neste momento o interfone tocou e…”? (…) Alguma dica na hora de mudar de cena, de assunto ou de cenário?

Você pode conferir a resposta abaixo, em texto, ou em vídeo:

Bem, vamos lá! :)

Uma grande preocupação do autor é não ter uma escrita entediante ou que seja “muito direta” o tempo todo. De fato, o ideal é sabermos narrar de forma fluida, usando frases mais diretas quando for o caso, sim, mas também sabendo aplicar suavidade a uma transição ou dar mais corpo à sua narrativa.

No exemplo da Josy, ela usou um som (o toque do interfone) para narrar uma mudança no rumo da cena e dar início a um novo acontecimento. Podemos fazer isso através de um som, uma visão, uma sensação… (ex.: o toque da campainha, a chegada de alguém, um susto…). E para você não precisar se referir a eles de forma direta (ex.: “Neste momento, o interfone tocou”), você pode usar alguns ganchos para tornar a descrição desses elementos mais leve e até mesmo mais bonita. Preparei para vocês 4 exemplos de gancho usando a dúvida da Josy, que é o toque do interfone.

Exemplo 1: (usar) Ações simultâneas (como gancho)

Vamos supor que a personagem está ouvindo música enquanto faxina a casa.
“Seu corpo respondia ao ritmo dançante, e era tentador o desejo de usar o cabo da vassoura como microfone. Ela cantou alto no refrão, acompanhando a voz do cantor pelos alto-falantes, até que o toque do interfone se harmonizou ao som das suas vozes, obrigando-a a baixar o volume e ir atender à porta”.

Ou a personagem pode estar conversando com alguém:
“Ele abriu a boca para responder mas, em vez da voz dele, só o que ela ouviu foi o toque alto do interfone, interrompendo aquela que podia ser a resposta mais importante da sua vida”.

Outro exemplo: a personagem está no banho.
“Ela se permitiu relaxar sob a água quente, deslizando o sabonete nos ombros tensos, porém o tempo de descanso durou pouco. O som do interfone a chamou de volta à realidade, lá fora, e ela praguejou baixinho enquanto acelerava os movimentos e se enxaguava com pressa antes de se enrolar na toalha e disparar para atender à porta”.

Exemplo 2: (explorar os) Sentimentos (do personagem)

Vamos supor que a personagem está com medo da chegada de alguém.
“Ela caminhou de um lado a outro da sala, pensando em como resolver aquela situação. Queria tanto poder sumir e nunca mais vê-lo! No entanto, o toque do interfone anunciou que seu maior pesadelo estava prestes a se concretizar…”.

Ou, pelo contrário, que ela está ansiosa pela chegada de alguém para jantar.
“Os talheres foram ajeitados sobre a mesa pela terceira vez. Não que houvesse necessidade, mas era uma forma de aplacar a ansiedade da espera. Contou os minutos de atraso no relógio e, antes que pudesse se perguntar se ele havia desistido do encontro, o toque do interfone levou embora suas preocupações, trocando-as pela promessa de uma maravilhosa noite a dois”.

Exemplo 3: (usar os) Pensamentos (do personagem como gancho)

Vamos supor que a personagem está estressada.
“Contas atrasadas, a negligência do ex-marido com o filho, a última parcela do salário desemprego… as preocupações giravam em sua cabeça como um torturante carrossel. Era tanto barulho dentro da cabeça que ela mal ouviu o toque do interfone na sala”.

Ou você pode usar um barulho para, por exemplo, despertar o personagem de um sonho (dormindo ou acordado, devaneando) e iniciar uma cena ali.
“Deitada sobre a grama, ela estudava os formatos das nuvens ao agradável som do canto dos pássaros, que brincavam nas árvores ao redor. Até que um passarinho bastante desafinado quebrou a harmonia com um pio longo e alto, que a fez estremecer. Ele insistiu mais uma vez e outra naquele canto, até ela perceber que não estava deitada sobre a grama, e sim sobre o colchão em seu quarto. E que quem cantava não era passarinho algum, e sim o insistente interfone na parede da sala”.

Exemplo 4: Reações (que aquele som ou acontecimento provocou no personagem)

Imagine que a personagem está cozinhando e se assustou com o toque do interfone.
“Ela tirou a tampa da panela e franziu a testa, nada satisfeita com a aparência daquele arroz empapado. Segurou a colher no ar, tentando decidir se era possível salvar aquela gororoba de algum jeito, até que o toque alto e inesperado do interfone quase a fez jogar o utensílio pelos ares”.

Ou que ela estava fazendo ginástica em casa:
“Cinco… seis… sete… céus, por que os segundos pareciam passar tão devagar naquela ingrata posição pranchada? Esforçou-se para inspirar fundo, implorando por algo que a obrigasse a interromper aquele martírio, e soltou o ar aliviada quando ouviu o interfone. Era a desculpa perfeita para desfazer a postura mais cedo e desabar no chão”.

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Esses são alguns exemplos que elaborei para inspirá-lo em suas criações. Como sempre digo: não são regras, apenas ideias e algumas das várias formas que podem te ajudar a pensar em descrições mais criativas e mais leves que tornarão a leitura do seu livro ainda mais gostosa.

Espero ter ajudado! :)

Com amor,
Sam :*