As histórias dos livros normalmente são divididas por capítulos, mas não é raro vermos casos em que o autor divide sua obra em “Parte 1” e “Parte 2”, ou até mais. Como decidir se isso pode ser útil ao seu livro?

Você pode conferir o conteúdo em texto (abaixo) ou no vídeo:

Vamos lá! ;)

A divisão de uma história em partes normalmente acontece quando o personagem vive um grande ponto de virada, alguma experiência ou acontecimento que trará uma mudança brusca ao seu caminho, à sua personalidade, ao cenário que ele habita, entre várias outras possibilidades.

Mas sabemos que esses pontos de virada são comuns nas histórias. Todo personagem vive, ao longo de um livro, experiências que mudam seu caminho até que ele alcance o grande final. Então, pensando a grosso modo, todo livro poderia muito bem ser dividido em partes 1 e 2. Como identificar se isso pode ser útil?

A possibilidade de dividir o livro em 2 (ou mais) partes surge quando o ponto de virada marca uma grande transformação do personagem, encerrando um ciclo da sua vida e iniciando outro. Exemplos: ele sofre um acidente e fica paraplégico; ele perde o grande amor da vida dele; ele é expulso de casa… a parte 2, nesses casos, encerra uma etapa na vida do personagem e anuncia outra, em que ele estará se adaptando a essa nova realidade e seguindo sua jornada nesse cenário totalmente novo, inclusive com novos objetivos.

Usando o exemplo do personagem que perde um grande amor: a gente vê isso acontecer direto nos livros, e nem sempre isso marca a divisão da história. Ela poderia acontecer se, antes dessa perda, o casal tivesse vivido toda uma história, todo um ciclo de vivências, com começo, meio e fim… e essa perda marcasse o início de um novo ciclo na vida dos dois, com um novo começo, meio e fim. Agora, se a perda desse grande amor fizer parte de um ciclo único que seu personagem está vivendo e representar apenas um breve obstáculo a ser vencido, aí não faria tanto sentido fazer a divisão.

Alguns exemplos para vocês entenderem:

ALERTA: Para melhor compreensão dos exemplos que vou dar, serei obrigada a dar spoiler dessas histórias! ;)

Como eu sempre digo, não existem regras, e sim conhecimento de técnicas para decidirmos quando usá-las ou não. Por isso mesmo, começo mostrando uma história que poderia muito bem ser dividida em 2 partes, mas a autora optou por não fazer isso, que é “A Promessa da Rosa”, da Babi A. Sette. O início do livro narra a juventude da personagem Kathelyn, sua personalidade, sua vida familiar, a forma como ela se apaixona por um duque e algumas vivências dos dois até que, mais ou menos na metade da história, um grande mal-entendido a faz ser abandonada por seu grande amor e, ao mesmo tempo, ser expulsa de casa. A partir daí, a autora dá um grande salto na linha do tempo e mostra como tanto a Kathelyn quanto o duque recomeçaram suas vidas, como estão vivendo… e eles viverão um reencontro, novos conflitos, o despertar da paixão adormecida, o esclarecimento do passado e, só então, o grande final. Observe: um novo ciclo na história dos dois. Aquele ponto de virada marcou o início de um novo ciclo na vida da Kate, um ciclo que seria descrito no livro. Por outro lado, se a expulsão de casa marcasse apenas um obstáculo que rapidamente seria resolvido antes de encerrar a história, não haveria nenhuma necessidade de cogitar dividir em partes 1 e 2. Mesmo sendo possível, a Babi optou por apenas seguir a divisão normal de capítulos, anunciando no início do capítulo seguinte uma longa passagem de tempo.

Um autor que gosta de usar a divisão da história em várias partes é o Mauricio Gomyde. Ele fez isso em Surpreendente, seu romance mais recente, mas vou comentar sobre “Dias melhores pra sempre”. Ele começa a história na parte 2. Sim, na parte 2! Só depois vem a parte 1, e então as partes 3 e 4. E por que ele fez isso? (alertando novamente que terá spoilers!) O livro é narrado pelo personagem Bruno e, no começo do livro, mostra o grupo de 4 amigos em uma viagem e os sentimentos dele pela Micaela. Essa parte inicial do livro (que é a parte 2) termina quando os amigos estão dentro do carro, viajando de volta para casa, e a Micaela deita a cabeça sobre as pernas do Bruno. Então, começa a parte 1, que acontece 4 anos antes, e mostra a vida do Bruno antes de conhecer esses amigos, sua rotina de surfe e algo que não foi informado na parte 2: ele perde a perna ao ser atacado por um tubarão e passa a usar uma perna mecânica. Então, é narrada a amizade dele com aqueles 3 amigos, o amor desabrochando por Micaela e a decisão de viajarem todos juntos, que é a viagem descrita na parte 2 (já lida). Então, começa a parte 3… já sabíamos que a viagem tinha acontecido e os amigos estavam no carro voltando para casa, mas essa parte começa com Bruno acordando no hospital. Eles sofreram um acidente! E esse acidente marca uma nova etapa no relacionamento de Bruno e Micaela, porque uma lasca da perna mecânica entrou em sua cabeça (ela estava deitada sobre as pernas dele) e afetou seu cérebro, de modo que ela não reconhece mais rostos. Daí em diante, começa todo um ciclo para ele lidar com essa situação, ajudá-la a saber quem ele é e que são apaixonados e seguirem com sua história de amor, apesar desse problema. Um novo ciclo, com novos objetivos. Mas veja como o Maurício usou a divisão do livro em partes não somente para separar esses ciclos, mas para contar a história de um jeito muito mais interessante do que seria apenas contar o começo, meio e fim na linha do tempo normal, e sem confundir o leitor.

Espero que tenham gostado do tema e dos exemplos que eu trouxe a vocês! Deixem seus comentários, suas colaborações suas dúvidas… semana que vem, tem mais!

Com amor,
Sam :*